Síndrome de impostor

Síndrome de impostor

Olá, visitante dessas terras longínquas de além vida.

Hoje eu confesso que estou me sentindo meio morta… cansada mesmo. Me sentindo uma grande e gorda pamonha, por conta das coisas da vida.

Estava cá com meu irmão conversando sobre esse fato de que, nada do que eu faça, nada do que eu produza, parece fazer o menor sentido. E pior… por mais que eu me esforce para fazer o mais perfeito possível, para mim ainda parece uma grande porcaria. E durante a conversa, mostrei a ele alguns ‘concorrentes’ dos artesanatos que eu faço, algumas miniaturas e esculturas… e que muita gente copia das fontes as quais eu me inspiro, mas não chega aos pés dos originais, e pior… até quando eu faço treinando, acho que faço bem melhor.

Mas de onde vem então esse lance do fracasso e o sentimento de inadequação constante?

Somos em três irmãos, dois meninos e uma menina (eu, no caso), e nosso pai sempre foi ausente (aumente o volume que lá vem drama). Nosso role model paterno foi o pai de nossa mãe, vovôzim, que sempre foi um cara ético e avesso as hipocrisias da vida. Ele era do tipo que tirava o sapato pra dar pro mendigo na rua, mas não aceitava dar dinheiro pra alimentar seus vícios. Quer um prato de comida? Te pago um PF ali no alemão.

E conversa vai, conversa volta, lembrei de um artigo que li esta semana (e que mandei o link para ambos), sobre como a necessidade de quando somos crianças em formação nos faz procurar estes modelos. E eles servem para a vida toda.

Mas e daí? Eu me sinto um fracasso, meus irmãos sofrem do mesmo problema, e junto a isso vem a depressão, a bipolaridade, a necessidade incessante do perfeccionismo e com isso o burnout nosso de cada dia. Nossos cérebros não páram, sempre funcionando a 300km/seg, nos dando insônia, ansiedade e principalmente, essa capacidade de cumprir tudo o que nos dispomos a cumprir, entregando o nosso melhor… mas nunca é, para nós, o nosso melhor… sempre parece falso, sempre parece que não é suficiente. Não parece digno ou de algum merecimento ou reconhecimento.

E meu irmão perguntou: será que foi pelo abandono paterno?

Sim. E não.

Tivemos pai. Mas também tivemos o abandono. Para nosso pai, apesar dele se orgulhar da gente, nunca fomos suficientemente bons para merecer o convívio dele. A presença dele. Lembro que, apesar de me sentir feliz em estar perto dele, sempre me senti como se estivesse perdendo parte de mim toda vez que ele dizia adeus, até breve, nos vemos em alguns meses quando papai estiver de folga. E ele nunca estava. Então, era uma espera constante. E quando ele voltava, queria saber das nossas notas, das nossas atividades na escola. Queria corrigir nossa caligrafia e a nossa dicção. Queria que nos vestíssemos adequadamente, como membros da sociedade, nos comportássemos como crianças educadas e principalmente, que fôssemos filhos ideais.

Nessa necessidade absurda de nos enquadrarmos a um modelo imaginário de filho, acabávamos por tentar suprir tudo isso para o nosso avô. Nosso pai de verdade, aquele que nos ensinou valores, moral, ética, que nos concedeu horas e horas de seu tempo e de seu conhecimento para nos fazer pessoas melhores. Tentávamos ser os filhos perfeitos que o nosso pai biológico queria, para um pai que só queria que fôssemos boas pessoas.

Este pai não está conosco hoje. Ele se foi há 7 anos, e com isso ele deixou um enorme vazio dentro de nós. Mas, como disse o artigo, ele foi e sempre será a maior influência de modelo de pessoa para nós três.

Mas… o que isso tem a ver com nossa síndrome de impostor?

Sempre quisemos fazer tudo mais perfeito e certo possível pra podermos agradar a nosso avô (e nao ao nosso pai). Na nossa, cabeça, no inconsciente, isso gerou a necessidade de atingir um perfeccionismo que eh impossível para qualquer ser humano.

Na nossa cabeça, mesmo sem querer, se não fossemos perfeitos, certinhos, comportados, etc etc… a gente não mereceria o amor do nosso avô… poxa, tivemos nosso pai e ele nos abandonou, e isso gerou no nosso inconsciente que não éramos bons o bastante pra ele.

Então, lá dentro, na parte que a gente não lida e convenhamos, não quer lidar… ficou essa necessidade de sermos perfeitos… e com a constante lembrança de nossa avó falando o tempo inteiro que ‘se for pra fazer nas coxas, nem faça’.

Isso implica, na cabeça de alguém em formação, que: ou você é competente demais, ou incompetente demais. Não tem um meio termo.

E ninguém curte muito esse lance de ser incompetente. Mas todo esforço para ser perfeito parece sempre não ser suficiente. Não ser bom o bastante.

Isso tudo, ‘no futuro’ (que ja chegou, aliás) causa a síndrome do impostor: nunca nos sentimos satisfeitos o suficiente com o que a gente faz, parece que nunca está bom o suficiente, e nos sentimos fracassados 110% do tempo.

Isso tambem se liga a bipolaridade, a depressão, ao burnout constante… a não conseguir simplesmente sentar e descansar… a cabeça ta sempre funcionando a 300km/segundo, e mesmo que você tome um porre para ver se a cabeça apaga, nunca acontece isso.

Se isso tem cura, eu não sei. Meus irmãos não sabem. Sabemos que vivemos em um constante burnout. Mas este burnout nunca nos queima por completo, porque nossa força motriz sempre está movendo e movendo e movendo o que fazemos para frente. Nunca nos deixa parar.

Mas nunca parece que somos bons o suficiente ou que sejamos merecedores de qualquer coisa nesta vida.

PS: Agradecimentos a menina Nina, que sem querer me inspirou a escrever algo que estava entalado há semanas. Espero que a leitura deste texto te ajude tanto quanto me ajudou escrevendo-o. <3